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Em tempos da superfood da vez e de influenciadores digitais constantemente dizendo o que é melhor para sua saúde (e muitas vezes com zero fundamentação), se torna cada vez mais difícil sabermos se estamos no caminho certo de uma alimentação equilibrada. Mas não é de hoje que a indústria alimentar molda todo esse contexto. O ovo já foi vilão, mas tempo depois voltou ao status de bom alimento. Idem para o café e outros itens alimentares. E agora estamos na era das superfoods. Se acreditarmos em todo hype sobre as tais ‘superfoods’ e seus nutrientes milagrosos ficamos com a impressão de que o bom e velho arroz com feijão tem o mesmo valor nutricional de um pacote de salgadinho, já que não é tão super assim não é mesmo? Jogadas da indústria alimentícia.

Mas o que não é contado nessa história toda é que o valor nutricional de um alimento é só uma parte do processo. A outra parte é o processo digestivo, ou seja, a capacidade do corpo em extrair e aproveitar esses nutrientes. E foi com a alimentação ayurvédica que aprendi que cada estômago tem uma capacidade digestiva, ligada à característica energética da pessoa. Ou seja, um alimento ótimo para uma pessoa pode ser tóxico para outra.

Nossa constituição energética como ponto de partida

Na alimentação ayurvédica, a recomendação alimentar parte do cruzamento entre duas informações: da constituição energética da pessoas e da constituição energética dos alimentos.

A constituição energética da pessoa (prakrti, a proporção de combinação entre os três doshas—energias funcionais da natureza—Vata, Pitta e Kapha) é mapeada a partir de um questionário e do mapa astral dela, e define a característica digestiva dela. A partir dessa característica digestiva é feita a recomendação alimentar. Ou seja, na alimentação ayurvédica, devemos priorizar os alimentos mais indicados para nosso tipo de digestão pois há um aproveitamento maior dos nutrientes e baixa geração de toxinas (ama, resíduo tóxico que se acumula no corpo quando alimentos, ervas, emoções ou experiências não são adequadamente processados, digeridos ou assimilados).

Desvendando alguns mitos alimentares

Aqui já posso dizer que um mito cai por chão. O mito do ‘comer de tudo’. Nós estamos numa sociedade cujo um dos pilares é a crença na escassez. Nos foi tirada nossa conexão com o divino e, por consequência, com a abundância divina, e então fomos colocados num contexto de escassez. Dentro desse contexto, somos passados por um processo de ‘pasteurização da consciência’, onde temos que aceitar tudo o que nos é imposto, inclusive alimentos, sem considerar nossa individualidade. Logo, escolher o melhor alimento para nós é visto por muitos como ‘frescura’ ou ‘desdém’. Quem nunca recusou um alimento por saber que não é adequado para sua alimentação e recebeu um olhar de desaprovação de algum familiar, amigo, conhecido, do tipo ‘como assim está recusando comida?’.

Precisamos compreender que cada pessoa possui uma constituição energética (prakrti), que se materializa num tipo de digestão, que digere bem certos alimentos e outros não. Simples assim.

E aqui cai por terra o segundo mito, das ‘superfoods’. Vamos considerar, por exemplo, a quinoa. Segundo a ayurveda, a quinoa é um alimento de sabor picante (na ayurveda sabor é diferente de gosto; os sabores possuem efeitos na digestão e na formação dos doshas em nosso corpo). Se uma pessoa digere bem o sabor picante (sabor, não gosto), ela consegue aproveitar os nutrientes dessa tal ‘superfood’. Porém se a pessoa possuir, como eu, uma digestão sensível ao sabor picante, a quinoa nunca será uma ‘superfood’, compreende? Pois será muito difícil a extração de nutrientes desse alimento. Sem contar toda exaustão e toda toxina gerada no processo. Isso explica porque eu sempre me senti indisposta após comer quinoa.

Então, qual seria a nossa ‘superfood’? Segundo a alimentação ayurvédica, aqueles alimentos mais adequados à nossa capacidade digestiva. Portanto não se espante se você descobrir que sua ‘superfood’ é um singelo ovo cozido. Sem segredos. E sem modismos.

Em harmonia com o ciclo terrestre

Para a ayurveda, nossa felicidade é resultado de nossa saúde e nossa saúde está intimamente ligadas à qualidade da nossa digestão. E na ayurveda a energia digestiva recebe até uma nomenclatura, jathara agni, o fogo digestivo. Localizado na altura do umbigo, sua função é digerir e utilizar os alimentos que comemos e transformá–los em energia. E essa energia digestiva é sensível ao clima: na estação quente do ano ela se dispersa no calor do ambiente, e na estação fria do ano ela se concentra dentro do nosso corpo. Ou seja, no verão nosso fogo digestivo é mais fraco do que no inverno. Isso explica porque a culinária dos países quentes possui muitas especiarias e a culinária dos países nórdicos, por exemplo, se utiliza de pouquíssimos temperos. Os temperos, as especiarias, são uma forma de manter o fogo digestivo quando este se perde.

Se nosso fogo digestivo oscila no ano, não faz sentido comer as mesmas coisas o ano todo. Aprendi com minha amiga Silvia Perotti, astróloga e especialista em culinária ayurvédica, que não se come quiche com salada o ano todo. Não que eu fosse adepta dessa combinação, mas é uma maneira de explicar que nossa alimentação deve respeitar não só os alimentos da época como a força do fogo digestivo do momento. Ou seja, a saúde também resulta de respeitarmos nosso corpo em cada ciclo da Terra. Puro autoconhecimento.

Palavras finais

O primeiro contato com a alimentação ayurvédica pode parecer que tudo é confuso, cheio de conceitos e nomes difíceis, e até muito rígido. Mas ao passo que vamos compreendendo os conceitos percebemos como a coisa toda faz sentido, e traz resultados.

Mas meu objetivo aqui não é ‘vender’ a ayurveda para ninguém e sim apresentar uma possibilidade, dentre muitas, de se ter uma alimentação autenticamente saudável, que considera quem você é e sua constituição energética. Minha amiga Silvia Perotti chama isso de ‘nossa identidade alimentar’.

Não existe desenvolvimento espiritual sem autoconhecimento. Chegará um momento de nossa jornada que sentiremos a necessidade de aos poucos nos desconectarmos desse modus operandi de anulação da individualidade. Uns dão a esse processo o nome de despertar. Gosto de falar que é um processo de de–pasteurização da nossa consciência. E a alimentação é um dos caminhos para esse processo. E a alimentação ayurvédica pode ser uma alternativa pois nos ensina sobre quem somos, sobre nossa constituição energética, sobre nossa relação com o ciclo terrestre e, principalmente, sobre nossa valiosa individualidade.

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REFERÊNCIAS
1. BANYAN BOTANICALS. Ama: The Antithesis of Agni. Disponível em: https://www.banyanbotanicals.com/info/ayurvedic-living/living-ayurveda/health-guides/understanding-agni/ama-the-antithesis-of-agni/. Acesso em: 30 ago. 2019.

2. BANYAN BOTANICALS. The Importance of Agni. Disponível em: https://www.banyanbotanicals.com/info/ayurvedic-living/living-ayurveda/health-guides/understanding-agni/the-importance-of-agni/. Acesso em: 30 ago. 2019.

Créditos imagem de capa: Brooke Lark

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