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Spiritual bypassing e a queda das ilusões

Tempo de leitura: 16 min

Eu vim para este planeta para trabalhar com cura. E falar de espiritualidade. E falo desses dois assuntos como quem pisa em ovos. Não porque sou desconfortável com o tema, não porque não sei do que estou falando, mas sim pela quantidade de distorções que as pessoas carregam com relação a esses dois tópicos. Apesar de muitos acharem bonito meu trabalho, não é uma tarefa fácil, pois uma das minhas atribuições aqui é desmontar ilusões que estão profundamente enraizadas como verdade. E nem sempre sou bem sucedida nesse aspecto, ou bem recebida, pois nem todos que estão buscando se equilibrar realmente desejam isso, mas aí é a escolha de cada um. Na verdade não sou a primeira a passar por isso e nem serei a última. E assim caminha a humanidade.

Eu trouxe aqui na introdução desse texto o tema das ilusões pois tenho observado um fenômeno, um padrão, em algumas pessoas que cruzam meu caminho: por um lado, um discurso todo espiritual, com toda aquela história de gratidão e afins, emoticon de mãozinha pra lá e pra cá, mas, por outro lado, com uma forte negação da sua própria vida, de sua realidade, de seus sentimentos, de seu contexto familiar, profissional, emocional. Ou seja, uma forte negação da vida em todas dimensões. Uns até com um papo de querer ‘ir embora’, motivados pelas visões distorcidas em torno do tema ‘despertar’ e da própria espiritualidade.

Isso sim me despertou para esse fenômeno, que ainda não tinha percebido, da espiritualidade como fuga e não como cura. Espero nesse texto despertar também as pessoas, para que façam uma autoanálise se a busca em que estão é fuga ou cura e que, a partir de suas conclusões, possam fazer os ajustes de rota necessários para encontrarem a vida plena e profunda que buscam.

Spiritual bypassing (ou a espiritualidade como fuga e negação da realidade)

Recentemente entrei em contato com o termo ‘spiritual bypassing’, através do trabalho da minha amiga Kivia Simões. Este encontro veio em momento propício pois me mostrou o caminho para compreensão desse comportamento descrito anteriormente, da prática e do discurso espiritual e a negação da própria realidade, que já vinha observando em algumas pessoas que passavam por minha vida, tanto em contato pessoal (amigos) quanto em contato profissional (clientes).

Bypass é um termo em inglês que significa ‘desviar’, ‘contornar alguma coisa’, ‘dar a volta por alguma coisa’ (1). ‘Spiritual bypassing’ é uma expressão criada pelo psicólogo transpessoal John Welwood e pode ser traduzida de maneira literal como ‘desvio pela espiritualidade’. Aqui utilizarei a expressão ‘fuga pela espiritualidade’ como tradução adaptada para ‘spiritual bypassing’. Welwood define ‘spiritual bypassing’ como a tendência em utilizar a prática espiritual como forma de suprimir a manifestação de nossas questões emocionais e pessoais, todas essas situações bagunçadas e não resolvidas que carregamos. É o comportamento de prematuramente querer transcender necessidades, sentimentos e tarefas básicos à nossa vida (2). A esta definição eu também acrescentaria um segundo grupo, daqueles com o discurso espiritual redondo, cheio de argumentações, mas com nenhuma prática em sua vida. Esse segundo grupo manifesta o ‘spiritual bypassing’, ou seja, a negação de sua realidade pela espiritualidade, através unicamente do discurso, muito envolvente e espiritualizado nas palavras, mas sem uma ação que corresponda ao que dizem.

Compreendido como sendo um mecanismo de defesa, esse comportamento blinda a pessoa da verdade, desconecta–a de seus sentimentos e a ajuda evitar a visão do todo. Pode se manifestar pela utilização de práticas espirituais para criar uma nova identidade, uma ‘identidade espiritual’, que na verdade é a antiga identidade disfuncional, baseada no ato de evitar questões pessoais não resolvidas, numa nova roupagem. E dessa situação pode–se desdobrar outros comportamentos distorcidos como o materialismo espiritual (utilizar ideias espirituais para ganhos pessoais), narcisismo, ilusão de grandiosidade ou groupthink (aceitação sem questionamento de uma ideologia coletiva) (2, 3).

Alguns sinais de ‘fuga pela espiritualidade’ (4):

  • Não estar focado no aqui e agora; estar vivendo no reino espiritual na maior parte do tempo;
  • Dar muita ênfase no positivo e evitar o negativo;
  • Acreditar que seu comportamento e ideias são moralmente melhores que o de outras pessoas;
  • Ser excessivamente desapegado;
  • Ser excessivamente idealista;
  • Carregar sentimentos de que tem o direito de ter ou ser o que você quer sem ter que trabalhar por isso ou merecer isso;
  • Manifestar raiva frequentemente;
  • Manifestar um estado de dissonância cognitiva (estado mental de conflito entre uma experiência ou comportamento e o que a pessoa acredita ser verdade);
  • Ser excessivamente compassivo;
  • Fingir que tudo está bem quando na verdade não está.

A esta lista ainda podemos acrescentar: repressão e privação dos sentimentos, limites fracos ou muito porosos, fobia ao sentimento de raiva, desenvolvimento não equilibrado (inteligência cognitiva mais desenvolvida que a inteligência emocional e moral), julgamento debilitado sobre o lado sombra do outro, desvalorização do pessoal em prol do espiritual, ilusão de ter alcançado um nível superior de existência, falta de aterramento na experiência corporal que resulta numa relação superficial com o mundo ou prende a pessoa num sistema espiritual que aparentemente dá a solidez que falta a ela (4).

Na ‘fuga pela espiritualidade’ a pessoa mantém–se numa relação superficial e fria, muitas vezes mecânica, tanto com a dimensão terrena quanto com a dimensão espiritual. Quase como uma laranja mecânica.

Por um lado, a pessoa nega sua realidade, não entra em contato com seus sentimentos, não quer olhar para seus sistemas (pais, parceiros, filhos, emprego), nega suas sombras, utiliza classificações distorcidas e simplificadas para o mundo (ex.: ‘tal coisa é da luz e tal coisa é da não–luz’). Por outro lado, o lado que seria o espiritual, a pessoa teoriza sobre as fronteiras da consciência porém não se arrisca a chegar lá, fala do amor incondicional mas não se permite dar e receber amor nem aos entes mais próximos, discursa sobre a luz mas se incomoda com o calor que acompanha esta (calor = energia de transformação). Em outras palavras, mantém–se numa relação superficial e fria, muitas vezes mecânica, tanto com a dimensão terrena quanto com a dimensão espiritual. Quase como uma laranja mecânica.

Apesar de Welwood ter observado esse comportamento na década de 70 e ter cunhado essa expressão no início da década de 80—ou seja, o processo todo tem quase 50 anos—ainda é um tema muito atual. E vejo uma tendência desse comportamento de ‘fuga pela espiritualidade’ crescer à medida que mais e mais pessoas despertam sem ter uma compreensão clara do que se trata esse processo, sem ter pessoas discutindo o despertar de maneira clara, madura e responsável e sem ter alguém que os apoie e oriente nesse processo.

Do chamado para despertar à fuga pela espiritualidade

A tendência é clara e acho que não preciso explicar muito: daqui pra frente o chamado para despertar será em massa e cada vez mais intenso. Porém, sem um apoio adequado, também será massiva a quantidade de pessoas que, no seu processo de despertar, ficarão presas nesse processo de negação pela espiritualidade na ilusão de que isso se trata do processo de despertar.

O chamado para despertar é aquele movimento interno onde nasce uma necessidade profunda de respostas, que gera um movimento externo de pesquisas, conexões, para chegar nessas respostas. Normalmente a busca é por quem somos, no sentido mais profundo, nossa origem estelar, qual nosso papel aqui nesse momento e temas correlatos. É uma busca por nossa reconexão. E esse é um processo natural, autêntico, afinal de contas é nosso direito divino re–acessarmos essa informação. Porém a maioria das pessoas opta por viver esse processo solitariamente e, nessa jornada, acaba distorcendo todo o processo de despertar, muitas vezes caindo nesse padrão de negação da realidade pela espiritualidade. É uma tendência que percebo que está crescendo e escrevo esse texto para colocar um pouco de luz nesse tema, já que há pouquíssimas pessoas discutindo o despertar de maneira clara e madura.

O processo de despertar não consiste de uma etapa, porém são inúmeros degraus e nem todos degraus serão percorridos aqui em Terra. A maioria dos degraus do despertar é percorrida fora do planeta, em outras experiências. Dito isto, vamos nos concentrar no que seria o processo do despertar aqui, em Terra, pois é o que importa neste momento.

A primeira coisa que gostaria de esclarecer é: o chamado para despertar não é sinônimo de despertar. Isso precisa estar claro. Muitas pessoas que me dizem que estão no processo de despertar na verdade só receberam o chamado, mas não despertaram. Ainda não.

Não terá uma falange angelical descendo na Terra pra te carregar no colo. O processo do despertar é único e o esforço é individual. Se te disseram algo diferente disso, sinto muito mas te venderam uma ilusão.

O chamado para despertar primeiramente quer dizer uma coisa: arrume a casa, a casa da sua alma, ou seja, você. O primeiro passo a se tomar ao receber o chamado para despertar não é ficar vendo videozinhos espirituais nas redes sociais, nem ficar usando emoticon de mãozinha como sinônimo de espiritualidade. O primeiro passo é limpar as suas mazelas, tudo. É a requalificação energética, é restaurar sua harmonia interna, seu poder pessoal e a sua conexão com sua verdade interior. Porque, meu bem, sem isso, fica impossível seguir os próximos passos. Na nossa jornada da alma carregamos em nossa bagagem energética hologramas, energias desqualificadas, traumas, contratos com seres desarmônicos e enquanto isso estiver vibrando no nosso campo energético, fica difícil o contato com nossa família espiritual, fica muito difícil contatar os planos superiores, em outras palavras, fica muito difícil do real despertar acontecer. Portanto deixe de lado os videozinhos ‘espirituais’ das redes sociais e foque no seu trabalho interno.

O movimento para sua requalificação energética tem que partir de você. O processo do despertar não é mágico, não tem milagre, não é automático e não terá uma falange angelical descendo na Terra pra te carregar no colo. O processo é único e o esforço é individual. Se te disseram algo diferente disso, sinto muito mas te venderam uma ilusão.

Para quem não sabe por onde começar, gostaria de sugerir um exercício. É um exercício para se colocar como observador da sua vida. Sente–se de maneira confortável. Agora visualize–se na sua frente, você. Perceba seu corpo físico, os pensamentos que essa pessoas na sua frente tem, quais os sentimentos que ela emana. E pergunte–se: que mudanças internas precisam ser feitas para que essa pessoa receba esse novo Eu, o Eu Desperto. Anote suas observações e impressões. Agora visualize na sua frente o seu sistema familiar. Visualize o sistema familiar de sua origem (pai, mãe, irmãos, avós) e, ao lado, o(s) sistema(s) familiar(es) que você criou (parceiro, ex–parceiros, filhos). E pergunte–se: o que precisa ser harmonizado nesses sistemas para que eles acomodem harmonicamente seu novo Eu, o Eu Desperto? Anote suas observações e impressões. Por último, visualize seu trabalho, sua ocupação. Visualize–se nessa situação, quais pensamentos que você tem quando está exercendo sua ocupação, quais sentimentos emergem. E então pergunte–se: o que precisa ser mudado aqui para que esse setor da minha vida receba esse novo Eu, o Eu Desperto? Anote suas observações e impressões.

Esse é um exercício importante. Se você recebeu o chamado para despertar faça esse exercício, olhe para sua vida. Eu tenho percebido que muitas pessoas, ao receber o chamado para despertar, ao invés de olharem para dentro e buscarem o que precisa ser harmonizado/requalificado, vão buscar fora, acabando se afixionando por canais de vídeos e certos perfis de rede sociais, na ilusão de que se se sobrecarregarem de informação uma hora vão despertar e a vida vai magicamente se ajustar. É o padrão do guru se repetindo. O problema é que esse monte de informações vindas das redes sociais acabam de misturando com a visão distorcida e imatura que a pessoa tem da espiritualidade, mistura–se com os dogmas e hologramas que a pessoa carrega e daí para um comportamento de negação da realidade pela espiritualidade é um passo só. Por isso, se você recebeu o chamado para despertar, a primeira coisa a fazer é parar e olhar para sua vida.

Não existe despertar sem sobriedade emocional. Não existe caminho espiritual sem equilíbrio mental.

Munido dos pontos que você identificou que precisam ser mudados ou harmonizados nas esferas de sua vida (eu, sistemas familiares e esfera profissional) o segundo passo é procurar ajuda. Sim, ajuda. E já adianto: você não vai conseguir fazer essas mudanças sozinho. Tanto para sua requalificação energética quanto para os ajustes que serão necessários você fazer na sua vida você precisará sim de ajuda profissional. O trabalho energético precisa ser acompanhado de um trabalho mental/emocional, seja de um psicoterapeuta, coach etc. Ambas esferas (energético–espiritual e psicopessoal) são necessárias nesse momento. Somente a esfera energético–espiritual pode não levar a pessoa a conseguir implantar as mudanças necessárias na vida e ainda pode contribuir para um comportamento de negação da realidade pela espiritualidade. Por outro lado somente a esfera psicopessoal não fornece todos os ajustes energéticos necessários pois o psicoterapeuta não está preparado para lidar com questões espirituais profundas, principalmente quando envolve traumas relacionados a energias desqualificadas e seres negativados. Portanto escolha um terapeuta vibracional capaz de te desconectar da matriz de controle pelo sofrimento e restabelecer seu padrão energético harmônico e também escolha um bom psicoterapeuta ou coach para te judar a olhar para sua sombra, resolvê–la e também para te ajudar as realizar as mudanças necessárias na sua vida. É esse o caminho e não tem milagre nem mágica.

Desfazendo–se das ilusões e abrindo–se para uma nova vida

A jornada de crescimento espiritual e expansão da alma é uma infinita espiral crescente. E a etapa Terra é apenas um degrau desse processo, porém um degrau importante, portanto, não despreze nem subestime esse momento de despertar. Somos seres evoluídos sim e estamos no processo de amadurecimento como seres espirituais. Portanto aproveitem a oportunidade que está sendo oferecida a vocês, a oportunidade de amadurecerem e se responsabilizarem pela suas vidas com a maturidade de seres criadores que vocês são. O processo de despertar é único e individual e, ao contrário do desejo do ego em desequilíbrio, não há Oscars para aqueles que despertam (5).

E lembre–se, a prática espiritual e o crescimento emocional não se tratam de alcançar uma qualidade particular de sentimento (‘bom’, por exemplo). Ser um humano numa jornada espiritual não se trata de adquirir prêmios o tempo todo. Se trata de estar no momento presente, seja lá o que esse momento pareça para você (3). Dito isso, desejo a todos uma ótima jornada e bom trabalho interno.

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REFERÊNCIAS

  1. Bypass. In: Cambridge Dictionary [Internet]. [citado 23 de julho de 2020]. Disponível em: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles-portugues/bypass
  2. Welwood J. Toward a psychology of awakening: Buddhism, Psychotherapy, and the Path of Personal and Spiritual Transformation. Boston: Shambhala Publications; 2002.
  3. Clayton I. Beware of spiritual bypass: Why do we avoid rather than accept? [Internet]. Psychology Today. 2011 [citado 24 de julho de 2020]. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/emotional-sobriety/201110/beware-spiritual-bypass
  4. Raab D. What is spiritual bypassing? [Internet]. Psychology Today. 2019 [citado 24 de julho de 2020]. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/the-empowerment-diary/201901/what-is-spiritual-bypassing
  5. Masters RA. Spiritual bypassing: when spirituality disconnects us from what really matters. Berkley: North Atlantic Books; 2010.

Créditos imagem de capa: John Towner

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